A Vassouras de Zé Santana

Domingo de Carnaval. No sítio nenhuma diferença dos dias como são. A diferença somos nós que chegamos da cidade para quebrar a rotina de paz do lugar.
Estamos no Jiqui, em Quixelô e, como de hábito, após algumas cervas, conversamos e descobrimos lugares interessantes para conhecer em busca de uma boa história. Desta vez vamos à Vassouras penúltimo distrito de Quixelô antes de chegar à Ilha Grande, onde termina o município.
Estamos na época das primeiras chuvas. Ainda não é inverno, mas a transformação já começa a aparecer. Os pés de cajarana começam a florar. Alguns já estão dando frutos. As melancias tomam forma e o mandacaru libera seus frutos. É um festival de cores e sabores.
A natureza sabe que haverá festa de fartura e já começa a vestir-se para o grande momento das chuvas. Muita pompa e circunstância. O que antes parecia morto, hoje se torna belo.
A caminho de Vassouras encontramos um pedaço de moinho; parte de um engenho abandonado, no meio do tempo e logo ao lado a casa.
A estrada segue e vamos rumo ao que sobrou, em Vassouras, do açude Orós. Vamos ao fundo do poço. Aqui não se planta, apenas pescam.

Chegamos! A visão é desoladora.

A retirada de forma descontrolada de água para a capital e outras cidades têm piorado a vida que quem vive do açude. A água baixa e fica só a lama, que para nada serve. É o sertanejo pagando o preço da falta de planejamento das cidades grandes e da demora na chegada da Transposição do São Francisco. Mas o nordestino é antes de tudo um forte. O que são mais dois meses para quem venceu cinco anos da pior seca da história?
Para chegar ao porão, onde só existe uma fina camada de água de pouco mais de um metro, teremos que andar por mais quinhentos metros e sempre descendo.
Na descida vamos tomando conhecimento da história que se esconde debaixo da água. Muitos caramujos mortos, cercados para piscicultura desativados e empilhados, pedras que serviram de âncora ainda com as cordas amaradas nelas, lixo, copos de plástico, garrafas pet, remédio perdido e até camisinhas.
Na medida que avançamos o solo fica mais rachado. Seco na ponta é mole como um pudim embaixo e, em outros pontos, é lama pura. Andar descalço neste tipo de terreno é correr risco de cortar-se em cascos de caramujos e vir a pegar uma grave infecção. Eles ficam no recheio da lama. Ao pisar a borda pode lhe cortar a pele e basta um pequeno corte, sem muita importância, para a coisa complicar depois.
A lama que fica perto do porão do açude vai se tornando outra armadilha. Andar ou cair ali pode significar a morte. Afundar é certo. Jogamos algumas pedras no que parecia um inocente trecho de praia molhada e logo vimos que elas somem completamente. A capa é na realidade uma armadilha cruel que muitos chamam de areia movediça.
Não conseguimos passar deste ponto, mas de longe a gente vê os troncos das árvores que ficavam submersos e estavam assim há décadas. Neste ponto do açude Orós, que se pode considerar raso, quando cheio, a profundidade é de uns 25 metros.
Logo adiante, na linha do horizonte, um morro com uma antena no topo avisa que do outro lado é Iguatu e ali é o distrito de José de Alencar.

De pedra à peixes

Na volta fizemos caminho diferente e encontramos uma cerca de pedras feita há algumas boas décadas pelo senhor Chico Alves. Ela foi montada inteiramente à mão apenas encaixando as pedras umas nas outras. Quando você olha de longe, parece um muro de pedras, mas quando chega perto descobre que não há um grama de argamassa para manter as pedras todas juntas. A solução da cerca de pedras foi tomada para que o solo fosse descoberto para o plantio, para criar pastagem, mas não deu certo totalmente e o que seria viver da agricultura e pecuária, virou comer da pesca. Daí Vassouras, nome dado ao tipo de cerca feito com pedaços de pedras.
No caminho paramos para degustar uma iguaria da caatinga: o fruto do mandacaru que chamam também de xique-xique. Quem conhece esse fruto sabe que não morre de fome na caatinga. Parece um kiwi, mas é absurdamente belo em um tom de vinho com grãos pretos envoltos por uma casca verde. Não bastasse ser belo é muito saboroso. O tempo bom de comer é quando a casca fica vermelha. Neste momento ele fica doce.
Em Vassouras fomos conhecer o senhor Zé Santana, o mais antigo morador vivo do lugar. Uns bons dedos de prosa foram trocados no bar da Neuza enquanto revisávamos as fotos.
Era hora de voltar. Vassouras é uma ponta de um gigante chamado Orós que quase secou, mas deu na lama.
Prostrado, quase sem água, na pior seca desde a Seca do Quinze, o Orós mostra seus segredos mantidos escondidos por muito tempo e que logo estarão submersos para sempre, se Deus quiser, a partir deste ano, quando o nível das águas voltar a subir.
Onde nós fomos, no futuro será apenas história. Nós trouxemos as fotos, não vimos o dilúvio, mas pisamos na lama que nunca mais queremos ver por aqui.
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